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imagem do catálogo FotoJovem Bélgica
Texto de introdução do catálogo FOTOJOVEM Bélgica

MUITO SENSÍVEL (MAS NÃO REALMENTE INFLAMÁVEL)

Carlos Theus
Secretário de Cultura da Cidade da Antuérpia.

A câmera fotográfica para uso único - um termo que soa melhor do que câmera descartável - é mais ou menos o instrumento de registro mais simples que você pode imaginar. Olhar, mirar, apertar: assim, uma observação super pessoal e momentânea é fixada. Tecnicamente as fotos são de qualidade excelente. Não lembram, ou quase não, a simplicidade enganosa desse instrumento com o qual foram feitas. Ao entregar para uns mil jovens antuerpianos uma câmera tão simples na mão, o que você obtém? Uma imagem bem pessoal e momentânea do que significa ser jovem em uma cidade grande? Pelo menos é isso que esperavam os criadores do projeto “Através Da Lente Jovem”...

Mil jovens, com uma câmera muito simples: em primeira instância, isto rende uma quantidade impressionante de fotos. Surpreendentemente, muitas imagens das próprias pernas e pés, muitas imagens do gato de estimação da casa, do cachorro do apartamento, dos periquitos particulares da cozinha, dos superpessoais aquários secos de insetos.

Diversas imagens também do meio ambiente familiar imediato, povoado pelas mamães, os papais, irmãos fazendo caretas, irmãs em poses forçadas, colegas de escola sorrindo com desdém, amiguinhas acanhadas. Muitas imagens de prateleiras de livros superlotadas, pilhas de CD’s, camas beliche populares, cartazes do tipo “get ready” nas paredes, bichinhos de pelúcia nas camas, televisões gigantescas. E imagens de prédios escolares e pátios, quase todos de um cinza igual, sem gosto, onde obviamente acontecem poucas coisas excitantes.

Resumindo: o “habitat urbano pessoal” em todo o seu aconchego cotidiano, com muitos-muitíssimos elementos conhecidos, inofensivos e reconhecíveis. Bastante próximo tudo isso. Pouco ambicioso talvez, mas sim assaz tranqüilizador, seguro, sem riscos.

Mas você vê também imagens críticas. Balbuciando: as muitas fotos do lixo nas ruas, de banheiros transbordantes, de coco de cachorro, de bicicletas estacionadas caoticamente, de carros e situações no trânsito. Imagens de uma cidade que causa irritação. Imagens que dizem: “Hei! E nós então?” e as quais comunicam uma boa dose de impotência.

Em seguida, você tem, felizmente, uma grande quantidade de imagens que falam realmente, que têm realmente algo a dizer. Muitas vezes são imagens de/e por jovens que foram procurar caquinhos e restinhos de beleza e ternura, apesar da cidade, apesar do acinzentado. São por vezes também imagens de/e por jovens que foram atrás de algo que se parece com uma estética própria. Algo distante, um pouco pretensioso, bagunçado, estética “drum ‘n bass” de uma cidade repleta de acasos e encontros inesperados. “Olha: isso aqui eu achei, por um momento, interessante”.

Ainda tem aquelas imagens que pretendem ser explicitamente uma declaração. Que se servem do gênero reportagem ou de um idioma fotográfico narrativo para dizer alguma coisa sobre o aborrecimento e a indignação jovem, sobre valores, sobre coisas que eles preferem não aceitar. Tentativas de resistência, tendo como fundo ou contra luz a ameaça de uma cidade provinciana, careta, inóspita, covarde.