voltar para o index
clique para ampliar o artigo original
MILHARES DE JOVENS, TANTAS HISTÓRIAS.

Ludo Bekkers
Crítico de Arte Jornal De Morgen

Duas meninas fumando num toilet. Claramente teatralizado, desajeitadamente, tendo em segundo plano a mancha de luz do flash. É uma dos milhares de fotos do brilhante projeto Através da Lente Jovem, em exposição nos escombros da sala de cinema Roma, em Borgerhout. O Através da Lente Jovem não tem pretensões científicas, mas tem como ponto de saída a realidade, e mais especificamente o mundo dos jovens do segundo grau de Antuérpia.

A foto das duas garotas é importante principalmente pela declaração embutida. Por que a Charlotte, que a fez, a usa para relatar a atmosfera na sala: ”Sempre vamos para os banheiros para fugir dos professores. Alguns professores são fumantes eles mesmos, mas não deixam a gente fumar para mostrar que tem poder sobre nós...Na escola tem professores que simplesmente tornaram-se professores para exercer poder sobre alguém”. É somente um exemplo de como se proporciona visão dentro do mundo de vida dos adolescentes, e da maneira que eles se posicionam na sociedade atual.

Segundo Claudia de Siervi, uma das organizadoras do projeto, trabalhou-se com imagens já que os jovens têm uma grande intimidade com o universo audiovisual. Nele a fotografia ainda conta com a vantagem de ser rápida, de permitir contar uma história e de ser relativamente barata. Dezoito escolas e institutos com um perfil diferente foram abordados. Conforme Claudia de Siervi: “Houve uma grande receptividade em todas. Disponibilizamos aos jovens 1000 câmeras descartáveis, com a mensagem: ‘Devolvam as máquinas, repletas de imagens da sua vida íntima, da sua visão da cidade e dos seus interesses e ideais.’”

Não menos do que 13.000 fotos foram devolvidas. Dessas, umas 200 foram selecionadas pela expressividade, e são expostas agora num antigo cinema, em Borgerhout. Os organizadores do projeto deduziram de 7.850 fotos quais os assuntos mais fotografados. Primeiro vem a escola, seguido por retratos de amigos ou de si mesmo, a vida de família, a casa, a cidade, a natureza, animais, edifícios, esporte e jogo. Em seguida encontram-se temáticas como sexo, pobreza, morte, emoções, amor e solidariedade.

Chama a atenção a quantidade de jovens que usam a câmera como livro de observações, onde está anotado o que acontece num dia ou semana, no ambiente imediato, e como eles reagem a isso. Há apenas poucas imagens que são feitas com uma emoção estética forte. Isso não é anormal, porque a maior parte dos participantes, provavelmente, nunca usou uma máquina fotográfica. Porém são exatamente essas meninas e meninos que chamam a atenção com fotos que contam as opiniões e experiências. É tamanha autenticidade e ingenuidade perante ao mundo e à vida deles, que passam a transmitir poder, emoção e envolvimento, espontaneamente para o espectador. Como se fossemos levados pela mão para conhecer uma realidade que, como profanos, não conhecemos.

Mohammed, 18 anos, faz uma série de fotos banais de um banco 24horas, um BMW, um recorte de jornal sobre drogas, uma vitrine com telefones celulares, uma mão carregada de maconha e escreve junto a isso: “No fundo, gira tudo em volta de dinheiro”. Ele coloca relações entre situações que todo mundo conhece, às quais, como adultos, não prestamos mais atenção.

Na verdade, o projeto Através da Lente Jovem diz que a fotografia, como é mostrada e discutida, é quase sempre um luxo estético. Mas nas mãos ‘inocentes’ de crianças, a máquina fotográfica pode mesmo, com uma foto só, contar uma historia que nos põe para pensar.